sábado, 20 de outubro de 2007

MAL PASSADO

medusasss disse... Tenho a certeza que o black catdog escreve explendidamente sobre tudo o que lhe for pedido!Mas... que tal... paixão arrebatadora de um gato pelo peixinho vermelho de aquário... e consequente dolorosa depressão quando o peixinho morre e o dono lho põe no prato para degustação? :P

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E porque não? Supper's ready... :-) -//- A minha história é uma história sem final feliz. Vou saltar no tempo, mas não se assustem porque nós gatos caímos sempre de pé. Mesmo quando saltamos para trás, recuamos e dolorosamente aterramos num tempo feliz que entretanto acabou. Quando ele entrou na casa, patético no seu saco de plástico, uma mancha rubra a balançar ao sabor da mão do dono (do peixe), senti de imediato uma angústia que afinal não passava de uma premonição. Fixei o olhar naquele borrão vermelho com barbatanas enquanto assistia à sua transferência para a jarra pirosa que eu várias vezes tombara, sem sucesso, para livrar os aposentos de tamanha aberração e percebi que havia algo de especial na criatura. Poucos dias passariam até a Red (ouvi os meus hóspedes humanos permanentes baptizarem-na assim) se instalar em definitivo num aquário de vidro atafulhado de objectos decorativos, filtros e outros volumes que quase não sobrava espaço para o peixe nadar. Nos dias que se seguiriam concentrei na recém-chegada a minha atenção. Observava-a horas a fio, dissecava-a de fio a pavio com um olhar atento alimentado pela minha natureza interior. Não tardei a viciar-me naquela rotina de observação, senti nascer uma atracção que me perturbava. Porém, algo em mim gritava que me afastasse, que de todo evitasse uma intimidade excessiva com aquela protagonista de cinema mudo que preenchia boa parte dos meus dias com o seu inevitável silêncio enquanto eu ruminava a minha crescente paixão. Não tardaríamos a trocar olhares incandescentes e a sonhar cenários escaldantes a dois, telepatia, e assim se foi aproximando o dia fatídico a partir do qual me entreguei ao delírio da dor. Ela morreu por amor, suicida. Mas o amor da minha vida saltou do seu refúgio, desesperada, pela visão tétrica de uma paixão antiga, grelhada para consumo, na chapa onde ela o reconheceu quando o transportavam para o repasto familiar a que, horrorizada, assistiu. Fiquei destroçado desde então e quase perdi a razão ao longo de um penoso flagelo que culminou numa tragédia cruel. O dono (do peixe que me traiu com o coração) recolheu a infeliz do meio do chão, já defunta, e ocorreu-lhe servir-me o cadáver à refeição poucas horas depois, o destino a confrontar-me com uma última decepção que acabou por expor os meus sentimentos a nu. O momento da despedida foi seco. E cru…

18 comentários:

paula disse...

Não sei porquê, mas lembrei-me logo de um poema de Alexandre O'Neill
(...)"De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?"
...coitado...e ainda por cima a seco, quando um belo de um saquê já toda a gente sabe que é o mais indicado para os crus...ai ai...

CatDog disse...

Já não é a primeira vez que invocam o O'Neill a propósito de um texto meu, Paula, e é uma coincidência feliz.
Podia dizer que fui eu quem lhe ensinou quase tudo o que ele sabe e tal, mas não. :-)
Digo apenas que me lisonjeia o paralelo ( visto na minha pele de anónimo gato pardo) e que o saquê teria sido uma excelente proposta para a ocasião.

Anónimo disse...

bem tou de boca aberta! Gostei imenso! ) uma daquelas que nos prende do inicio ao fim... pobre peixinho... =) miaus oci

CatDog disse...

E o pobre gatinho, coitado, tão dilacerado pelo desgosto? :-)

(Cuidado que pode entrar mosca...)

M disse...

Pobre gatinho que nunca mais se deliciou com atum e se converteu voluntariamente à carne... até ao dia em que conheceu uma pomba (pomba verdadeiramente extraordinária, pacifista, de um arrulhar melodioso como ele nunca tinha ouvido), e deixou o coraçãozinho bater descompassadamente, ao ritmo de um novo grande amor...
Acho que o gatinho morreu de fome... os gatos não são amantes de toju nem soja.

CatDog disse...

E então, freguesa? A encomenda chegou em condições, tal qual a pediste? :-)

M disse...

sim! :) Estou deliciada!

CatDog disse...

Mais uma cliente satisfeita!

Sol disse...

Que delicia de história... ou não! Afinal comeu ou nem por isso? Continue a deliciar-me com as suas histórias por favor...:)

Anónimo disse...

Se fosse eu comia-a, mas cada gato sabe de si...

CatDog disse...

Quer sugerir algum tópico ou prefere deixar ao meu critério, Raios de Sol?
E obrigado pela escolha do termo. Delícia é uma opção que encaixa como uma luva... :-)

CatDog disse...

Eu também, desbotado. Sou um gato de muito alimento.

paula disse...

Pois...eu bem me parecia que nessa pele de "anonimo gato preto" havia aí uma faceta literaria :))

CatDog disse...

Gosto de acreditar nessa (como noutras) fantasia...

Maria disse...

este gato é o must!**

CatDog disse...

São fases, são fases.
Isto depois passa...

Sol disse...

Black CatDog, deixo sempre ao seu critério. Continue a surpreender-me :)

CatDog disse...

Se gosta de surpresas, I´m your cat... :)